Artistas brasileiros brilham em Xangai durante o feriado do Dia do Trabalhador
Nota do editor: o autor, Rafael Henrique Zerbetto, é um especialista em idioma estrangeiro no Centro Ásia-Pacífico do China International Communications Group e diretor do Conselho dos Cidadãos Brasileiros de Pequim. Foi agraciado com o Prêmio da Amizade do Governo Chinês em 2025.
Entre os dias 30 de abril e 5 de maio, diversos artistas brasileiros se apresentaram em Xangai, centro financeiro da China e uma das cidades mais importantes da Ásia. As atividades foram parte do calendário oficial de eventos do Ano Cultural Brasil-China e contaram com a presença da ministra da Cultura do Brasil, Margareth Menezes.
As apresentações de artistas brasileiros em Xangai aconteceram dentro da programação do JZ Spring Festival, tradicional festival musical que acontece anualmente durante a primavera, que este ano teve o Brasil como país homenageado e contou com uma Vila Brasileira, com dois palcos exclusivos.
Um novo tempo para as relações Brasil-China
No Dia Internacional do Jazz, coube a Ivan Lins, uma lenda viva da música mundial, inaugurar o festival com uma apresentação comemorativa de seus 80 anos de vida e 50 de carreira. Acompanhado de sua banda e dividindo o microfone com seu filho Cláudio Lins em algumas canções, Ivan emocionou o público de Xangai ao cantar seus maiores sucessos.
O cantor, pianista e compositor brasileiro, laureado em novembro de 2025 com o Prêmio à Excelência Musical (Lifetime Achievement Awards) da Latin Recording Academy, tem uma relação cada vez mais forte com a China, tanto que incluiu a canção chinesa Molihua (Jasmim) ao repertório desta apresentação em Xangai, emocionando o público.
Em 2024, Ivan Lins apresentou-se em Xangai como músico convidado em um concerto de Lee Ritenour e Dave Grusin. Este ano, retornou para uma apresentação sua, marcando presença nas atividades do Ano Cultural Brasil-China.
Encantamento
Ivan Lins não foi o único brasileiro a se apresentar no JZ Spring Festival deste ano. Ao iniciar seu show com a canção Abre Alas, que pede passagem para a folia, Ivan abriu alas para 120 profissionais da cultura que vieram se apresentar na China.
O festival reuniu tanto artistas consagrados quanto jovens talentos para levar aos palcos de Xangai uma diversidade de ritmos e melodias de todos os cantos do país, incluindo as guitarradas amazônicas de Felipe e Manoel Cordeiro, os ritmos contagiantes do nordeste e a reinterpretação criativa dos clássicos da MPB pela Banda Cabulosa.
A voz suave de Adriana Calcanhoto contrastou com o vozeirão de Luedji Luna e a voz distorcida de Jonathan Ferr, e a ministra da cultura do Brasil, Margareth Menezes, também cantora, subiu ao palco para interpretar algumas de suas canções, atendendo a pedidos da comunidade brasileira na China.
Além dos shows, foram realizadas quatro master classes, ministradas, respectivamente, pelos músicos Tauí Castro, Manoel Cordeiro, Silvero Pereira e Khystal, promovendo o intercâmbio artístico e a aproximação dos profissionais brasileiros com o público local.
Jonathan Ferr, Luedji Luna e Josiel Konrad, grandes nomes do jazz brasileiro contemporâneo, se revezaram entre os palcos do JZ Festival, em Xangai, e do Taihu Festival, em Pequim, durante o feriado.
Outro destaque no JZ Festival foi a cantora chinesa Ziwei Xiong, que viveu e estudou em São Paulo e hoje usa a música para promover as trocas culturais entre Brasil e China. Atuando também como intérprete da delegação brasileira, Ziwei tornou-se muito querida pelos artistas e subiu ao palco diversas vezes para se apresentar com eles.
Ponto de Cultura
O tradicional Dia do Brasil, organizado anualmente em setembro pelo Conselho de Cidadãos Brasileiros de Xangai com apoio do Consulado Geral do Brasil em Xangai, este ano foi antecipado para integrar a programação do festival, dando aos músicos brasileiros residentes na cidade a chance de participar da festa.
Intercalando apresentações de música ao vivo com aulas de dança, o palco do Dia do Brasil recebeu, ao longo do dia, shows dos grupos locais Chorando em Xangai (chorinho), Groove It (MPB, pop e sertanejo) e Golden Brazilians (samba).
As oficinas de dança também empolgaram os presentes. Renata Dancer ministrou uma aula de axé; Jana e Thiago ensinaram o público a dançar carimbó; e Ge Rodrigues, acompanhado por outros dançarinos, ensinou frevo.
Houve também uma apresentação dos artistas locais com músicos convidados, integrantes da missão vinda do Brasil, celebrando a diversidade cultural brasileira e contagiando os presentes.
Durante o evento, a ministra Margareth Menezes subiu ao palco para entregar ao coletivo Golden Brazilians, formado por artistas brasileiros em Xangai, o certificado que o reconhece como o primeiro Ponto de Cultura na Ásia. Desde 1998, o coletivo organiza a única roda de samba e chorinho ativa na China.
Além de ser um importante reconhecimento do trabalho desenvolvido pelos Golden Brazilians, o ponto de cultura insere Xangai em uma grande rede de colaboração e intercâmbios culturais com grupos espalhados por todo o Brasil.
E foi justamente com o samba dos Golden Brazilians que a festa terminou. Dançarinas vestidas como passistas de escola de samba se juntaram aos músicos durante a apresentação e se misturaram com o público, transformando o espetáculo num grande baile de carnaval.
Cultura ajuda a vender produtos brasileiros
Durante o JZ Festival, barracas para venda de comida brasileira foram instaladas na Vila Brasileira, criando um mercado nas proximidades dos palcos onde foram concentradas as apresentações de artistas tupiniquins. O mercado ajudou muitos empreendedores brasileiros a faturar durante o evento, além de promover produtos típicos do Brasil para o público chinês.
A rede de churrascarias brasileiras Latina trouxe para o evento diversos cortes de churrasco e também a tradicional caipirinha brasileira. Já o cardápio da Cool Shop Meat Store incluiu caipirinhas de limão e de maracujá, dois pratos de churrasco com farofa e arroz, feijoada e quiche.
A microtorrefação de cafés especiais Jonas Emil Coffee Roasters levou para o evento cafés preparados a partir de grãos selecionados, importados do Brasil e recém-torrados para garantir o máximo frescor e o melhor sabor.
Donna Jannie, empresa dedicada a levar a gastronomia brasileira para a China, ofereceu seus tradicionais salgadinhos, pães de queijo e bolos tipicamente brasileiros, todos fabricados em Xangai, além de vinhos e cafés importados do Brasil.
Vender comida brasileira na China é um desafio, pois trata-se de uma comida à qual o chinês não está acostumado, então primeiro é preciso “encantá-lo” pela culinária brasileira. Um festival de música cria um ambiente e uma história que contextualizam aquele alimento, não apenas estimulando o consumo de tais produtos, mas também associando-os a uma memória afetiva que ajuda a fidelizar o cliente.
É por isso que a parceria Brasil-China precisa ir além do campo econômico. Os intercâmbios acadêmicos promovem o entendimento, enquanto os intercâmbios culturais têm o poder de encantar.
Havendo entendimento e encantamento, as parcerias entre Brasil e China poderão se aprofundar muito mais.